Bombacha e Vestido de Prenda
Origens

    Na internet há vários textos que insinuam a origem da bombacha como sendo o resultado de uma manobra comercial entre os ingleses  e os comerciantes na bacia do rio da Prata, onde as sobras de uniformes confeccionados pelos ingleses para seus aliados turcos na Guerra da Criméia, teriam invadido o comércio e caído no gosto da gauchada. Essa hipótese só não explica porque essa manobra comercial não foi executada com os colonos norteamericanos, mercado que estava mais perto das indústrias inglesas além de não existir a barreira da língua que dificultaria a comercialização.  A hipótese mais provável é a que atribui como um legado dos árabes devido a ocupação da península ibérica pelos mouros durante 400 anos. Desta forma a vestimenta masculina caracterizou-se por ter as calças com pernas largas. Os espanhóis, por sua vez, quando colonizaram a América do Sul, trouxeram essas calças que se transformaram nas bombachas.
    Já o vestido de prenda é outra história. Muitos são os folcloristas, pesquisadores e escritores, tais como  Lilian Argentina Braga Marques, Véra Stedile Zattera, Jorge Frederico Duarte Webber, entre outros, que criticam os atuais trajes femininos utilizados pelas prendas por não condizerem com a trajetória histórica do povo gaucho, especialmente no que diz respeito a sua situação econômica. Quase todas essas criticas estão baseadas nos seguintes fatos:
  1. Que no passado não havia o que hoje chamamos de “vestido de prenda”. O que existiam eram os vestidos, as saias, as blusas, os casaquinhos, etc. em voga no seu tempo. Eram roupas de uso comum conforme a classe social.
  2.  Luiz Carlos Barbosa Lessa, em seu livro Nativismo – Um fenômeno social gaúcho”, no capítulo 13, A invenção das tradições diz o seguinte: “E como é que é o vestido das moças? Como modelo, aproximado, só havia os vestidos caipiras, das festas juninas de São Paulo, ou as folhinhas anuais distribuídas pela Cia. Alpargatas na Argentina. Paixão encasquetou que deveriam ser vestidos compridos até os tornozelos; eu argumentei que se nós, rapazes, estávamos trajando nossas costumeiras bombachas, não carecia que as moças se voltassem para tão longe nos antigamentes; isto não chegou a ser posto em votação, mas o bigodudo Paixão nos venceu pelo cansaço...” (p.66).
  3. Outra obra fundamental do Tradicionalismo, “Danças e Andanças da Tradição Gaúcha”, de Barbosa Lessa e Paixão Côrtes, diz na página 110: “Com referência às prendas, tivemos de improvisar algum figurino que nos parecesse lógico, enquanto tomávamos consciência de um novo item a acrescentar aos próximos formulários de pesquisa de campo: a indumentária gauchesca nas festas do passado.” E, mais adiante, na página 111: “No fim as prendas entraram em cena, com seus vistosos vestidos floreados”.
    De acordo com esses historiadores, o que houve foi um resgate de modelos com a finalidade exclusiva de servirem às apresentações das danças que Barbosa Lessa e Paixão Côrtes vinham pesquisando e recriando. Entretanto, como o vestido de prenda foi “inventado” pelo CTG 35 por volta de 1950,  somente agora estaria adquirindo o status de fato folclórico, porém ao se comparar os vestidos utilizados pelas prendas até a criação do Movimento Tradicionalista Gaucho (MTG) em 1966 e os que são usados hoje, não encontram-se muitas semelhanças. Aqueles vestidos eram simples, no tecido e no corte, enquanto que os atuais são ricos no tecido e nos detalhes.
    Apesar do pouco conhecimento que uma pessoa possa ter do tema, não será difícil perceber que os vestidos das prendas, na sua maioria são ricos, pois é comum o uso da seda, do veludo, de bordados e apliques e que o corte dessas vestimentas está mais próximo das usadas pelas rainhas e burguesas do que as verdadeiras camponesas gaúchas.
    A desculpa que se ouve, quando alguém questiona o luxo dos vestidos é uma só: “é como as filhas dos fazendeiros se vestiam”. Pode-se até admitir que essas herdeiras se vestiam dessa forma, mas certamente não eram apenas elas as únicas representantes da sociedade gaucha e as camponesas, que sempre foram em maior numero e que também participavam de festas nos galpões? Também não é difícil perceber o descompasso entre a indumentária dos peões, que normalmente representa o homem do campo, o trabalhador, e o das prendas que parecem todas representantes da aristocracia, basta observar um fandango nos CTG’s onde as prendas formam um cenário maravilhoso, mas que abstraído o momento, poderia ser tomado como um desfile de moda, tal a beleza, o luxo e a diversidade dos modelos de vestidos.
    O que ocorre é que a grande maioria das prendas não aceitam usarem determinados vestidos, principalmente os de chita que, segundo elas, são "tão simplezinhos". Para tais moças e senhoras, o critério beleza é superior ao da autenticidade. Infelizmente elas não vêem a pura e singela beleza que a simplicidade traz em si. O pior resultado deste fato é a desistências de prendas em grupos de dança porque não tem condições econômicas para confeccionar os vestidos utilizados pelas demais integrantes, indo assim em direção contrária aos princípios do folclore que é a participação popular.

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